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| Foto: Craig Mason |
Uma estória sobre uma menina que queria
muito
estar preparada para o Futuro
Era uma vez…
A Mafalda cresceu e, quando chegou a altura de ir para a escola, como todas as crianças, estava muito ansiosa, mas também com muita curiosidade e vontade de arranjar novas amigas, de ir conhecer novas pessoas, novos colegas e aprender muitas coisas. E conseguiu isso tudo. A Mafalda quase não tinha tempo para poder ter tantas amigas e amigos e partilhar os seus gostos e atividades com eles.
Conforme a Mafalda foi crescendo, os pais começaram a falar-lhe do Futuro.
- Tens que te dedicar mais aos estudos Mafaldinha, pois só assim podes garantir o teu Futuro – diziam os pais.
- Sim paizinho. Sim mãezinha – dizia a Mafalda, sem perceber muito bem o que era aquilo de se preparar para o Futuro. O que ela mais gostava era de estar com as amigas e amigos, com a família, de ir passear com os pais, ir à praia e ao campo, ter actividades fora de casa, enfim estar sempre ocupada. Também gostava muito de ler, e se não podia estar mesmo com as amigas, conversava com elas pelo Skype, Instagram ou Whatsapp. Também gostava de andar de bicicleta, de ouvir música e sim, também gostava de estudar e de ter boas notas.
Conforme a Mafalda foi crescendo, os pais, vendo que ela, apesar de ser boa aluna, boa menina e muito disciplinada, acharam que ela podia aperfeiçoar-se. Começaram a insistir com ela, dizendo que se quisesse ter um Futuro melhor, teria que deixar de andar a perder tempo a brincar e a fazer outras coisas fora de casa que não fosse na escola e a estudar. E a estudar; e a estudar…
- Só assim conseguirás um Futuro brilhante. Um Futuro risonho. Um Futuro onde tu poderás ser e fazer tudo o que quiseres. Se perdes tempo com as pessoas e com brincadeiras não chegas lá! – diziam constantemente os pais da Mafalda.
- Mas assim eu não consigo brincar com ninguém, deixo de ver e estar com as minhas amigas! – queixava-se a Mafalda inúmeras vezes. Mas os pais eram categóricos.
- Tens que te preparar para o Futuro minha filha, tens que te preparar para o Futuro e, a única maneira de isso acontecer é dedicares-te a estudar.
A insistência dos pais da Mafalda foi tanta, que ela, como adorava os pais e não querendo desiludi-los, apesar de contrariada e triste, acedeu.
Ela interiorizou, e assumiu como sua, a opinião dos pais em relação ao Futuro. Porque era uma coisa muito importante, dedicou-se então completamente a preparar o seu Futuro.
Os tios e os primos convidavam-na para sair, para passear, mas a Mafalda, muito disciplinada a preparar o seu futuro, nunca se desviou da sua conduta.
- Desculpa mas não posso ir. Tenho de estudar e preparar o meu Futuro – dizia a Mafalda.
- Anda lá Mafalda, anda lá andar de bicicleta um bocadinho connosco – convidavam-lhe as amigas e colegas – vem apanhar um bocado de sol que o dia está tão bonito.
- Não posso! Não Posso! Não posso! Era a esta a resposta típica da Mafalda. E assim, os tios e primos foram as primeiras pessoas a desistirem de estar com ela.
O Futuro, e só o Futuro, era o seu objectivo. Passaram mais anos ainda, e a Mafalda manteve aquela fixação que lhe tinha sido induzida pelos pais e assumida por ela.
- Gostamos muito de ti Mafalda – diziam constantemente os pais.
- Eu também – dizia a Mafalda.
Por causa da sua recusa em estar com as pessoas, deixou de ter amigos, e os poucos que ainda restavam e que, de vez em quando, tentavam falar com ela, ao verem-na só preocupada com o Futuro, desoladas, acabavam também por a abandonar. Às vezes, desabafava com os pais, que se calhar estava muito sozinha, não tinha amigas e que já não via a família há muitos anos, que os avós já tinham partido e ela mal se tinha apercebido. Mas os pais, diziam-lhe sempre que ela estava no bom caminho e que assim é que estava preparar bem o Futuro. Que no Futuro podia ser e fazer tudo o que ela quisesse. Poderia então passear, sair com as amigas, viajar e até ter um cão… E ela, por amor aos pais, foi-se conformando sempre com aquilo que os pais lhe diziam.
Um dia, sem se fazer anunciar, o Futuro chegou.
O Futuro bateu à porta e, a Mafalda que tinha passado os anos todos da sua vida a preparar-se para ele, não o conheceu e por isso assustou-se.
- Então Mafalda, não me conheces? – perguntou-lhe o Futuro – Tens andado estes anos todos a preparar-te para mim e agora que eu cheguei tu não me conheces?
A Mafalda olhou para o Futuro e vendo uma figura velha, sem saber ser era homem ou mulher, sem brilho nos olhos, os cabelos desgrenhados, cheia de rugas na cara e o corpo todo curvado, não gostando nada do que viu, ficou muito desconfiada. Passados alguns minutos, depois de ganhar coragem perguntou:
- Mas, se o Senhor é o Sr. Futuro, porque é que é assim tão velho? Eu pensava que para se ser Futuro tinha que se ser novo, bonito, cheio de energia, com amigos à volta, com alegria, a divertirem-se…
- Pois é isso que eu sou: novo, bonito, cheio de energia, com amigos à minha volta, com muita alegria, e a divertir-nos sempre que podemos.
- Olha, o Senhor não pode ser o Sr. Futuro. E não sei porque é que está a mentir-me. Aquilo que eu vejo não é nada disso que está praí a dizer! – disse a Mafalda muito empertigada.
- Ó menina Mafalda! Estás completamente enganada! Isso de que tu estás a falar não é o meu retrato. Eu, na verdade, é como te digo: sou jovem, bonito, com energia e tenho muitas pessoas amigas.
A Mafalda não queria acreditar que aquele que dizia ser o Futuro podia estar a ser tão mentiroso. E o Futuro continuou.
- Os meus melhores amigos e amigas foram-me apresentados pelo Sr. Passado. O Sr. Presente também me acabou de apresentar algumas pessoas novas e eu vou ter que me empenhar para elas também ficarem minhas amigas. Todas elas são minhas amigas porque eu sempre as respeitei, brincámos juntas, partilhámos os nossos problemas e encontrámos soluções, vivemos as nossas alegrias e tristezas, passámos maus momentos em que nos apoiámos e por bons momentos em que nos divertimos muito, enfim, fiz belas amizades e por isso, sempre que preciso de alguma coisa delas, sempre que preciso das pessoas minhas amigas, posso sempre contar com elas; e elas comigo.
Estas palavras do Futuro deixaram a Mafalda muito intrigada.
- Desculpa lá, ó Sr. Futuro, mas eu não conheço nenhum Sr. Presente e muito menos um Sr.Passado. Os meus pais só falavam no Futuro. Eu só ouvi falar no Futuro, eu sempre me dediquei a estudar e a trabalhar para ter um Futuro risonho e brilhante e por aquilo que estou a ver, você não é o meu Futuro. Por isso não sei do que falas nem me interessa. Vou ficar aqui a lutar pelo meu Futuro e quando ele chegar de certeza que o reconhecerei. A Mafalda falava, falava, sem perceber muito bem o que estava a acontecer.
- Além disso – continuava a Mafalda – não vejo aí nada do que me acabaste de dizer que eras. Onde estão essas pessoas todas que dizes o Sr. Passado e o Sr.Presente te apresentaram, que tu as respeiteitaste, que brincaram juntas, partilharam os vossos problemas e encontraram soluções, com quem viveram as vossas alegrias e tristezas, que passaram maus momentos em que se apoiaram e que passaram por bons momentos em que se divertiram muito e que tu dizes que são muito tuas amigas, que eu não vejo ninguém?
- Pois eu te garanto que elas estão aqui comigo. Fazem parte de mim. Sem elas eu não consigo viver.
- Pois és um grande mentiroso, porque eu só vejo uma figura velha…
- Eu posso explicar-te – o Futuro ia a falar mas a Mafalda não deixou.
- E porque é que dizes que és jovem e cheio de energia, se eu só vejo uma figura velha, cheia de rugas, nem sei se é homem ou mulher, só vejo uma figura feia, corcunda, e com os os cabelos desgrenhados e maltratados? Porque é que mentes? O Futuro, pacientemente aguardava que a Mafalda lhe desse espaço, que não inperrompesse, para lhe poder explicar tudo. Mas a Mafalda parecia estar em negação.
- Eu posso explicar-te Mafalda.
- Então explica! – disse a Mafalda com muito má educação.
- Pois bem Mafalda. O que se passa é o seguinte: quando o Futuro vem ter connosco, aquilo que nós vemos não é o Futuro. Aquilo que nós vemos é a nossa figura, a nossa imagem. Aquilo que vemos é exatamente aquilo que somos. Aquilo que tu estás a ver não é o Futuro; aquilo que estás a ver é o Presente. Por isso essa figura velha, cheia de rugas, que não sabes se é homem ou mulher, feia, cabelos desgrenhados e maltratados e corcunda, és tu Mafalda. É o Presente, o teu Presente; um Presente sem Passado. Eu, enquanto Futuro sou jovem, bonito, com energia e tenho muitas pessoas amigas e outras à minha espera. Mas eu agora enquanto estou contigo já não sou o teu Futuro. Foi isso que eu te vim cá dizer. Mas tu, Mafalda, como viveste só para um Futuro que tu sonhaste, que nunca ligaste ao Passado desprezando sempre o Presente… acontece que sem Presente não há Passado. Ora é o Passado e o Presente, juntos, que fazem o Futuro. O Futuro que tu sempre quiseste ter, é agora o teu Presente, és agora a imagem de ti mesma: essa figura velha, cheia de rugas, que não sabes se é homem ou mulher, feia, cabelos desgrenhados e maltratados e corcunda.
- Então porque é que dizes que és jovem, bonito, com energia e tens muitas pessoas amigas e outras à tua espera? – perguntou a Mafalda.
- É que eu vim cá anunciar que vais deixar de ter Futuro. E vou ser o Futuro de pessoas que me mereçam mais. Eu quis ser teu Futuro, pois tu, no início, foste muito promissora, mas depois tornaste-te arrogante, egoísta, mesquinha, sem humanidade nenhuma. Já não consigo aturar-te mais nenhum dia. Se quiseres pensar em ter um Futuro, outro Futuro que não eu, é melhor que comeces a dar mais atenção ao Presente, ser amiga das pessoas, tratar bem os mais velhos, ter um cão… Olha, Carpe Diem!
A Mafalda, posta perante esta revelação, apercebeu-se finalmene que não tinha gozado a vida e que a vida tinha passado por ela. Lembrou-se então de todas amigas, colegas, familiares que desprezou e ignorou. As palavras daquele Futuro ainda lhe martelavam na sua cabeça: essa figura velha, cheia de rugas, que não sabes se é homem ou mulher, feia, cabelos desgrenhados e maltratados e corcunda, és tu Mafalda. A cabeça da Mafalda trabalhava agora a mil à hora. Como é que ela nunca se apercebeu que o Futuro começava com o Presente, para assim, ter um Passado que a alimentasse e que ela tinha desperdiçado tudo? Finalmente, quando deixou que a arrogância, sobranceria e superioridade que a acompanhou toda a vida fosse substituida pela humildade, começou a chorar. Chorou muito. Chorou alto. Chorou de desespero, de tristeza e de de arrependimento por ter desprezado a sua família, as suas colegas, as suas amigas e que nem sequer tinha chegado a ter um cão.
- Nem sequer um cão tive! – gritou a Mafalda.
Foi então que sentiu uma mão forte, mas carinhosa, a agarrar na sua e lhe disse baixinho ao seu ouvido:
- Acorda, Mafalda.
E, a partir deste dia, nenhuma menina chamada Mafalda pensou mais no futuro, sem ter os pés bem assentes no presente e respeito pelo passado.


