Apresento-vos a pessoa, não direi a mais azarada do mundo, mas talvez aquela pessoa cujo lado negativo da vida insiste em rever-se nele.
– Apresento-vos o Filinto.
O Filinto nunca esteve para nascer, pois a sua mãe, que faleceu mal ele nasceu, esteve para o abortar, mas a curandeira da sua aldeia enganou-se na mezinha e, quando se foi a ver, já não havia hipóteses.
Nasceu!
Com o seu nascimento, percebeu-se então a vontade da desmancha – e a aflição – da mãe, pois pelos ares que o moço tinha percebia-se que não era fruto da relação contratual do casamento.
Com o seu nascimento, o putativo pai deu longo conta do par de chifres que carregava e, por isso, sentindo-se desresponsabilizado, deu de frosques.
Como era normal naqueles tempos, as irmãzinhas que tomavam conta do hospital e acolhiam os órfãos de guerra – apesar da guerra que o recém-nascido começava era uma guerra diferente – nada previa que os acontecimentos tomassem o rumo que tomaram.
Por de se adivinhar uma longa e tortuosa caminhada que tinha pela frente, as irmãzinhas acolheram o moçoilo, já sorridente, castanhinho café, carapinha russa e olhos verdes.
E, antes que alguém lhe chamasse filho de alferes, resolveram batizá-lo, logo na altura que o receberam, mesmo sem a presença do padre Malheiro, pároco residente, que andava mais preocupado com a irmã Clotilde, recém chegada à Missão do Marrere do que com os seus deveres religiosos.
Não se sabe se alguma das irmãzinhas era leitora de Molière, o que é certo é que o batizaram de Filinto Elísio do Nascimento.
– Filinto Elísio do Nascimento, assim se chamará o petiz – disse a irmãzinha superiora.
– Abençoado seja o Senhor! – disseram as restantes irmãzinhas todas embevecidas.
– Cuxi, cuxi, cuxi, – faziam umas
– Bliu, bliu, bliu, – faziam outras.
E o moço dava pulos de contentamento.
Como estávamos em plena guerra colonial, a Missão do Marrere foi assaltada e incendiada pelos insurretos. Houve várias mortes, mas o Filinto, dada a sua clareza de pele, carapinha russa e olhos verdes, os insurretos resolveram levá-lo com eles, para o mato, como se de um mascote ou talismã se tratasse.
Assim, foi educado no meio dos guerrilheiros que lutavam pela apompada libertação da sua terra.
Um dia, as tropas governamentais atacaram o acampamento onde se encontrava o Filinto e, no meio de tamanho tiroteio que acabou em carnificina, o Filinto safou-se, mas não sem ser atingido por uma bala perdida, na perna direita, que o deixou coxo para os restantes dias da sua vida.
Foi levado pelos militares governamentais, pois as irmãzinhas sobreviventes ao ataque da Missão do Marrere a ele se tinham referido.
Com a saída das irmãs da colónia, o Filinto foi com elas mas, como elas foram dispersas por várias congregações, o Filinto seguiu a Irmãzinha Superiora, que entretanto se aposentara e fora viver para a montanha, no interior do país, para uma casa muito velha que lhe tinha sido deixada por familiares.
Não durou muito tempo a Irmãzinha Superiora, tendo ido com os anjinhos para terras sagradas.
O Filinto, agora já rapazote, coxo, castanhinho café, carapinha russa e olhos verdes, destoava de todos naquela aldeia da montanha. Pelos atributos que se escondiam por debaixo das calças coçadas e apertadas, adivinhavam-se ali apetrechos de muita felicidade futura para muitas donzelas e preocupações proporcionais para os rapazes menos abonados e, vai daí que, um dia, numa luta deveras encarniçada, por ciúmes, ou talvez não, dum moço da aldeia, mas como que adivinhando problemáticas futuras, não teve com meias medidas e o Filinto levou com o ancinho por entre as pernas, deixando-o definitivamente inútil e também dependurada a jovem promessa dos seus apetrechos, passando a servir apenas de mostruário daquilo que era para ser mas que nunca o chegou a ser, desfazendo-se assim aquilo que se adivinhava de grande futuro e prazer.
O Filinto percebeu finalmente que não era uma pessoa cuja sorte o acompanhava. Ficasse quieto, ou não, havia sempre algo de negativo que lhe acontecia.
Um dia, com pena dele, a Dona Antónia, vendo-o passar por perto, o chamou para com ela partilhar um guisado de botelhoco com frades recém apanhados. Mas foi confiança de pouca dura, pois à noite, quando se encontrava recolhido debaixo dumas antas, a guardilha o apanhou e o levou para o Posto com a acusação de ter roubado um anel da velha Antónia.
– Nega, Zé Nega! – Diziam-lhe os da guardilha. – Vá! Nega, Zé Nega!
Mas negar o quê se nem sabia de que havia de negar!
No Tribunal, até o Meritíssimo desfez a falta de provas com o argumento jurídico mais brilhante que jamais foi apresentado nas casas de leis:
– Se não foi ele quem mais poderia ter sido?
Nem mesmo depois da velha Antónia se ter deslocado ao Posto e ter dito à guardilha que afinal tinha encontrado o anel debaixo da cama de nada lhe valeu.
– A Justiça foi feita – dissera-lhe um fardado todo emproado. – A Justiça foi feita!
Seja.
Sentia-se bem na cadeia. Tinha tudo o que já há muito lhe faltava: para além de cama, mesa e… bem, não tinha roupa lavada, tinha um tecto e o respeito dos companheiros de cela.
Mas o país estava em recessão e foi dada ordem de soltura ao Filinto. Os crimes leves eram todos perdoados. O Filinto bem se queixou, mas não teve outro remédio de se encontrar desaprisionado contra a sua vontade.
Os anos passavam.
Os azares do Filinto corriam o mundo.
Era conhecido como a pessoa com a capacidade de atrair as coisas mais negativas sobre ele.
Foi assim toda a vida.
Tudo lhe era desfavorável, tudo era negativo.
Até que um dia chegou o seu dia de sorte.
Sonhou com uns números do Euromilhões, comprou-os e ganhou.
Não disse nada a ninguém para não dar azar.
Quando se dirigia para o quiosque para reclamar o seu prémio, um camião da recolha dos resíduos recicláveis deixou cair um dos enormes cestos cheios de garrafas para reciclar, que rodando como que em câmara lenta, foi atingir o desgraçado do Filinto.
Após mais de meio ano em coma, o Filinto recuperou.
Lembrou-se então por que razão estava no hospital:
– Eu ganhei o Euromilhões! Eu ganhei o Euromilhões! Eu ganhei o Euromilhões! – repetiu vezes sem conta, mas como o seu discurso não passava disso, encheram-no de calmantes durante os restantes seis meses do ano.
Quando deu novamente de si, já com o discurso coerente, pediu que lhe chamassem um canal de televisão para poder contar a sua história.
O canal das tretas e merdetas compareceu à convocatória.
O Filinto contou então a sua história, em directo, comovendo os espectadores que o viam e escutavam. O cameramen, atrás da sua câmara, com tatuagens de guerra e bicípites de halterofilista, chorava a bandeiras despregadas com as histórias cheias de carga negativa que o Filinto contava e que tinham sido, afinal, a sua vida.
A determinada altura, o repórter para dar descanso a todos os que sofriam com a narrativa do Filinto, teve a coragem, a frieza de perguntar:
– Mas…ó Sr. Filinto, em toda a sua vida nunca teve nada de bom, algo que não fossem azares, enfim algo que tenha sido efectivamente positivo?
Fez-se silêncio.
O Filinto remexeu-se, olhou fixamente para o repórter, baixou a cabeça por uns longos segundos, tornou-a a levantar, com os olhos marejados em lágrimas e a voz embargada, disse que sim, que havia uma coisa positiva que lhe tinha acontecido.
– Senhoras e Senhores, agora em directo para todo o mundo e em primeira mão, o Sr. Filinto vai dizer a única vez em que lhe aconteceu algo positivo! – anunciou o repórter entusiasmado e em grande plano.
A câmara, foca-se agora no Filinto e o repórter pergunta-lhe:
– Ora diga lá então Sr. Filinto! Qual foi o facto positivo que lhe aconteceu?
E o Filinto respondeu:
– Disseram-me hoje: Positivo! Estou Covid-positivo!
– Apresento-vos o Filinto.
O Filinto nunca esteve para nascer, pois a sua mãe, que faleceu mal ele nasceu, esteve para o abortar, mas a curandeira da sua aldeia enganou-se na mezinha e, quando se foi a ver, já não havia hipóteses.
Nasceu!
Com o seu nascimento, percebeu-se então a vontade da desmancha – e a aflição – da mãe, pois pelos ares que o moço tinha percebia-se que não era fruto da relação contratual do casamento.
Com o seu nascimento, o putativo pai deu longo conta do par de chifres que carregava e, por isso, sentindo-se desresponsabilizado, deu de frosques.
Como era normal naqueles tempos, as irmãzinhas que tomavam conta do hospital e acolhiam os órfãos de guerra – apesar da guerra que o recém-nascido começava era uma guerra diferente – nada previa que os acontecimentos tomassem o rumo que tomaram.
Por de se adivinhar uma longa e tortuosa caminhada que tinha pela frente, as irmãzinhas acolheram o moçoilo, já sorridente, castanhinho café, carapinha russa e olhos verdes.
E, antes que alguém lhe chamasse filho de alferes, resolveram batizá-lo, logo na altura que o receberam, mesmo sem a presença do padre Malheiro, pároco residente, que andava mais preocupado com a irmã Clotilde, recém chegada à Missão do Marrere do que com os seus deveres religiosos.
Não se sabe se alguma das irmãzinhas era leitora de Molière, o que é certo é que o batizaram de Filinto Elísio do Nascimento.
– Filinto Elísio do Nascimento, assim se chamará o petiz – disse a irmãzinha superiora.
– Abençoado seja o Senhor! – disseram as restantes irmãzinhas todas embevecidas.
– Cuxi, cuxi, cuxi, – faziam umas
– Bliu, bliu, bliu, – faziam outras.
E o moço dava pulos de contentamento.
Como estávamos em plena guerra colonial, a Missão do Marrere foi assaltada e incendiada pelos insurretos. Houve várias mortes, mas o Filinto, dada a sua clareza de pele, carapinha russa e olhos verdes, os insurretos resolveram levá-lo com eles, para o mato, como se de um mascote ou talismã se tratasse.
Assim, foi educado no meio dos guerrilheiros que lutavam pela apompada libertação da sua terra.
Um dia, as tropas governamentais atacaram o acampamento onde se encontrava o Filinto e, no meio de tamanho tiroteio que acabou em carnificina, o Filinto safou-se, mas não sem ser atingido por uma bala perdida, na perna direita, que o deixou coxo para os restantes dias da sua vida.
Foi levado pelos militares governamentais, pois as irmãzinhas sobreviventes ao ataque da Missão do Marrere a ele se tinham referido.
Com a saída das irmãs da colónia, o Filinto foi com elas mas, como elas foram dispersas por várias congregações, o Filinto seguiu a Irmãzinha Superiora, que entretanto se aposentara e fora viver para a montanha, no interior do país, para uma casa muito velha que lhe tinha sido deixada por familiares.
Não durou muito tempo a Irmãzinha Superiora, tendo ido com os anjinhos para terras sagradas.
O Filinto, agora já rapazote, coxo, castanhinho café, carapinha russa e olhos verdes, destoava de todos naquela aldeia da montanha. Pelos atributos que se escondiam por debaixo das calças coçadas e apertadas, adivinhavam-se ali apetrechos de muita felicidade futura para muitas donzelas e preocupações proporcionais para os rapazes menos abonados e, vai daí que, um dia, numa luta deveras encarniçada, por ciúmes, ou talvez não, dum moço da aldeia, mas como que adivinhando problemáticas futuras, não teve com meias medidas e o Filinto levou com o ancinho por entre as pernas, deixando-o definitivamente inútil e também dependurada a jovem promessa dos seus apetrechos, passando a servir apenas de mostruário daquilo que era para ser mas que nunca o chegou a ser, desfazendo-se assim aquilo que se adivinhava de grande futuro e prazer.
O Filinto percebeu finalmente que não era uma pessoa cuja sorte o acompanhava. Ficasse quieto, ou não, havia sempre algo de negativo que lhe acontecia.
Um dia, com pena dele, a Dona Antónia, vendo-o passar por perto, o chamou para com ela partilhar um guisado de botelhoco com frades recém apanhados. Mas foi confiança de pouca dura, pois à noite, quando se encontrava recolhido debaixo dumas antas, a guardilha o apanhou e o levou para o Posto com a acusação de ter roubado um anel da velha Antónia.
– Nega, Zé Nega! – Diziam-lhe os da guardilha. – Vá! Nega, Zé Nega!
Mas negar o quê se nem sabia de que havia de negar!
No Tribunal, até o Meritíssimo desfez a falta de provas com o argumento jurídico mais brilhante que jamais foi apresentado nas casas de leis:
– Se não foi ele quem mais poderia ter sido?
Nem mesmo depois da velha Antónia se ter deslocado ao Posto e ter dito à guardilha que afinal tinha encontrado o anel debaixo da cama de nada lhe valeu.
– A Justiça foi feita – dissera-lhe um fardado todo emproado. – A Justiça foi feita!
Seja.
Sentia-se bem na cadeia. Tinha tudo o que já há muito lhe faltava: para além de cama, mesa e… bem, não tinha roupa lavada, tinha um tecto e o respeito dos companheiros de cela.
Mas o país estava em recessão e foi dada ordem de soltura ao Filinto. Os crimes leves eram todos perdoados. O Filinto bem se queixou, mas não teve outro remédio de se encontrar desaprisionado contra a sua vontade.
Os anos passavam.
Os azares do Filinto corriam o mundo.
Era conhecido como a pessoa com a capacidade de atrair as coisas mais negativas sobre ele.
Foi assim toda a vida.
Tudo lhe era desfavorável, tudo era negativo.
Até que um dia chegou o seu dia de sorte.
Sonhou com uns números do Euromilhões, comprou-os e ganhou.
Não disse nada a ninguém para não dar azar.
Quando se dirigia para o quiosque para reclamar o seu prémio, um camião da recolha dos resíduos recicláveis deixou cair um dos enormes cestos cheios de garrafas para reciclar, que rodando como que em câmara lenta, foi atingir o desgraçado do Filinto.
Após mais de meio ano em coma, o Filinto recuperou.
Lembrou-se então por que razão estava no hospital:
– Eu ganhei o Euromilhões! Eu ganhei o Euromilhões! Eu ganhei o Euromilhões! – repetiu vezes sem conta, mas como o seu discurso não passava disso, encheram-no de calmantes durante os restantes seis meses do ano.
Quando deu novamente de si, já com o discurso coerente, pediu que lhe chamassem um canal de televisão para poder contar a sua história.
O canal das tretas e merdetas compareceu à convocatória.
O Filinto contou então a sua história, em directo, comovendo os espectadores que o viam e escutavam. O cameramen, atrás da sua câmara, com tatuagens de guerra e bicípites de halterofilista, chorava a bandeiras despregadas com as histórias cheias de carga negativa que o Filinto contava e que tinham sido, afinal, a sua vida.
A determinada altura, o repórter para dar descanso a todos os que sofriam com a narrativa do Filinto, teve a coragem, a frieza de perguntar:
– Mas…ó Sr. Filinto, em toda a sua vida nunca teve nada de bom, algo que não fossem azares, enfim algo que tenha sido efectivamente positivo?
Fez-se silêncio.
O Filinto remexeu-se, olhou fixamente para o repórter, baixou a cabeça por uns longos segundos, tornou-a a levantar, com os olhos marejados em lágrimas e a voz embargada, disse que sim, que havia uma coisa positiva que lhe tinha acontecido.
– Senhoras e Senhores, agora em directo para todo o mundo e em primeira mão, o Sr. Filinto vai dizer a única vez em que lhe aconteceu algo positivo! – anunciou o repórter entusiasmado e em grande plano.
A câmara, foca-se agora no Filinto e o repórter pergunta-lhe:
– Ora diga lá então Sr. Filinto! Qual foi o facto positivo que lhe aconteceu?
E o Filinto respondeu:
– Disseram-me hoje: Positivo! Estou Covid-positivo!




