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Algures no interior de Portugal, Portugal

O Filinto

     
Apresento-vos a pessoa, não direi a mais azarada do mundo, mas talvez aquela pessoa cujo lado negativo da vida insiste em rever-se nele. 
    – Apresento-vos o Filinto. 
    O Filinto nunca esteve para nascer, pois a sua mãe, que faleceu mal ele nasceu, esteve para o abortar, mas a curandeira da sua aldeia enganou-se na mezinha e, quando se foi a ver, já não havia hipóteses. 
    Nasceu!
    Com o seu nascimento, percebeu-se então a vontade da desmancha – e a aflição – da mãe, pois pelos ares que o moço tinha percebia-se que não era fruto da relação contratual do casamento.
    Com o seu nascimento, o putativo pai deu longo conta do par de chifres que carregava e, por isso, sentindo-se desresponsabilizado, deu de frosques.
    Como era normal naqueles tempos, as irmãzinhas que tomavam conta do hospital e acolhiam os órfãos de guerra – apesar da guerra que o recém-nascido começava era uma guerra diferente – nada previa que os acontecimentos tomassem o rumo que tomaram. 
    Por de se adivinhar uma longa e tortuosa caminhada que tinha pela frente, as irmãzinhas acolheram o moçoilo, já sorridente, castanhinho café, carapinha russa e olhos verdes.
    E, antes que alguém lhe chamasse filho de alferes, resolveram batizá-lo, logo na altura que o receberam, mesmo sem a presença do padre Malheiro, pároco residente, que andava mais preocupado com a irmã Clotilde, recém chegada à Missão do Marrere do que com os seus deveres religiosos. 
    Não se sabe se alguma das irmãzinhas era leitora de Molière, o que é certo é que o batizaram de Filinto Elísio do Nascimento. 
    – Filinto Elísio do Nascimento, assim se chamará o petiz – disse a irmãzinha superiora. 
    – Abençoado seja o Senhor! – disseram as restantes irmãzinhas todas embevecidas. 
    – Cuxi, cuxi, cuxi, – faziam umas 
    – Bliu, bliu, bliu, – faziam outras. 
    E o moço dava pulos de contentamento.
    Como estávamos em plena guerra colonial, a Missão do Marrere foi assaltada e incendiada pelos insurretos. Houve várias mortes, mas o Filinto, dada a sua clareza de pele, carapinha russa e olhos verdes, os insurretos resolveram levá-lo com eles, para o mato, como se de um mascote ou talismã se tratasse. 
    Assim, foi educado no meio dos guerrilheiros que lutavam pela apompada libertação da sua terra. 
    Um dia, as tropas governamentais atacaram o acampamento onde se encontrava o Filinto e, no meio de tamanho tiroteio que acabou em carnificina, o Filinto safou-se, mas não sem ser atingido por uma bala perdida, na perna direita, que o deixou coxo para os restantes dias da sua vida. 
    Foi levado pelos militares governamentais, pois as irmãzinhas sobreviventes ao ataque da Missão do Marrere a ele se tinham referido.
    Com a saída das irmãs da colónia, o Filinto foi com elas mas, como elas foram dispersas por várias congregações, o Filinto seguiu a Irmãzinha Superiora, que entretanto se aposentara e fora viver para a montanha, no interior do país, para uma casa muito velha que lhe tinha sido deixada por familiares. 
    Não durou muito tempo a Irmãzinha Superiora, tendo ido com os anjinhos para terras sagradas.
    O Filinto, agora já rapazote, coxo, castanhinho café, carapinha russa e olhos verdes, destoava de todos naquela aldeia da montanha. Pelos atributos que se escondiam por debaixo das calças coçadas e apertadas, adivinhavam-se ali apetrechos de muita felicidade futura para muitas donzelas e preocupações proporcionais para os rapazes menos abonados e, vai daí que, um dia, numa luta deveras encarniçada, por ciúmes, ou talvez não, dum moço da aldeia, mas como que adivinhando problemáticas futuras, não teve com meias medidas e o Filinto levou com o ancinho por entre as pernas, deixando-o definitivamente inútil e também dependurada a jovem promessa dos seus apetrechos, passando a servir apenas de mostruário daquilo que era para ser mas que nunca o chegou a ser, desfazendo-se assim aquilo que se adivinhava de grande futuro e prazer. 
    O Filinto percebeu finalmente que não era uma pessoa cuja sorte o acompanhava. Ficasse quieto, ou não, havia sempre algo de negativo que lhe acontecia. 
    Um dia, com pena dele, a Dona Antónia, vendo-o passar por perto, o chamou para com ela partilhar um guisado de botelhoco com frades recém apanhados. Mas foi confiança de pouca dura, pois à noite, quando se encontrava recolhido debaixo dumas antas, a guardilha o apanhou e o levou para o Posto com a acusação de ter roubado um anel da velha Antónia. 
    – Nega, Zé Nega! – Diziam-lhe os da guardilha. – Vá! Nega, Zé Nega!
    Mas negar o quê se nem sabia de que havia de negar!
    No Tribunal, até o Meritíssimo desfez a falta de provas com o argumento jurídico mais brilhante que jamais foi apresentado nas casas de leis:
    – Se não foi ele quem mais poderia ter sido?
    Nem mesmo depois da velha Antónia se ter deslocado ao Posto e ter dito à guardilha que afinal tinha encontrado o anel debaixo da cama de nada lhe valeu. 
    – A Justiça foi feita – dissera-lhe um fardado todo emproado. – A Justiça foi feita!
    Seja.
    Sentia-se bem na cadeia. Tinha tudo o que já há muito lhe faltava: para além de cama, mesa e… bem, não tinha roupa lavada, tinha um tecto e o respeito dos companheiros de cela. 
    Mas o país estava em recessão e foi dada ordem de soltura ao Filinto. Os crimes leves eram todos perdoados. O Filinto bem se queixou, mas não teve outro remédio de se encontrar desaprisionado contra a sua vontade.
    Os anos passavam. 
    Os azares do Filinto corriam o mundo.
    Era conhecido como a pessoa com a capacidade de atrair as coisas mais negativas sobre ele. 
    Foi assim toda a vida.
     Tudo lhe era desfavorável, tudo era negativo.
    Até que um dia chegou o seu dia de sorte. 
    Sonhou com uns números do Euromilhões, comprou-os e ganhou.
    Não disse nada a ninguém para não dar azar.
    Quando se dirigia para o quiosque para reclamar o seu prémio, um camião da recolha dos resíduos recicláveis deixou cair um dos enormes cestos cheios de garrafas para reciclar, que rodando como que em câmara lenta, foi atingir o desgraçado do Filinto.
    Após mais de meio ano em coma, o Filinto recuperou. 
    Lembrou-se então por que razão estava no hospital:
     – Eu ganhei o Euromilhões! Eu ganhei o Euromilhões! Eu ganhei o Euromilhões! – repetiu vezes sem conta, mas como o seu discurso não passava disso, encheram-no de calmantes durante os restantes seis meses do ano.
    Quando deu novamente de si, já com o discurso coerente, pediu que lhe chamassem um  canal de televisão para poder contar a sua história. 
    O canal das tretas e merdetas compareceu à convocatória.
    O Filinto contou então a sua história, em directo, comovendo os espectadores que o viam e escutavam. O cameramen, atrás da sua câmara, com tatuagens de guerra e bicípites de halterofilista, chorava a bandeiras despregadas com as histórias cheias de carga negativa que o Filinto contava e que tinham sido, afinal, a sua vida.
    A determinada altura, o repórter para dar descanso a todos os que sofriam com a narrativa do Filinto, teve a coragem, a frieza de perguntar:
    – Mas…ó Sr. Filinto, em toda a sua vida nunca teve nada de bom, algo que não fossem azares, enfim algo que tenha sido efectivamente positivo?
    Fez-se silêncio. 
    O Filinto remexeu-se, olhou fixamente para o repórter, baixou a cabeça por uns longos segundos, tornou-a a levantar, com os olhos marejados em lágrimas e a voz embargada, disse que sim, que havia uma coisa positiva que lhe tinha acontecido. 
    – Senhoras e Senhores, agora em directo para todo o mundo e em primeira mão, o Sr. Filinto vai dizer a única vez em que lhe aconteceu algo positivo! – anunciou o repórter entusiasmado e em grande plano.
    A câmara, foca-se agora no Filinto e o repórter pergunta-lhe:
    – Ora diga lá então Sr. Filinto! Qual foi o facto positivo que lhe aconteceu?
    E o Filinto respondeu:
    – Disseram-me hoje: Positivo! Estou Covid-positivo!


A Ilha


Uma estória sobre pessoas muito cientes da
importância do seu nariz

Era uma vez…

“Num mundo acelerado, de muita informação a circular e sem aquisição de conhecimento que lhe corresponda, de falta de nível de alguns líderes, de alterações climáticas e a sua negação, proselitismos perigosos e crescentes, o aparecimento – como cogumelos – de novos multimilionários, com a internet cada vez mais rápida e insegura, com as viagens de avião cada vez mais low cost, mundo está cada vez mais pequeno e as pessoas globalizaram-se. Esfumaram-se. As pessoas perderam a consciência de cidadania, da moral, da ética, dos valores universais, consagrados na carta dos direitos humanos, das crianças e ainda de todas as convenções que visam a proteger e tratar os humanos… como humanos. As pessoas deixaram de ligar ao concreto, aos factos assentes em valores civilizacionais, do pensar devagar e agir depressa e em conformidade, para passar a agir sem pensar, por instinto – se é que isso existe nos humanos – ou pura e simplesmente porque sim, ou porque pertence a uma tribo, mesmo sem o saber, agindo em conformidade. As pessoas assumiram o medo de passar por este mundo sem serem notadas e, certamente por isso, faz todos os esforços para que sejam notadas. Aparecer é ser. Ser-se já não tem significado nenhum, porque ninguém é sem aparecer”. O que acabámos de ler é um resumo da conclusão de um estudo sobre os Caminhos da Humanidade, levada a efeito por um grupo de cientistas, poetas, escritores, arquitetos, gente simples, boa e comum. Este fragmento do estudo, esteve bem guardado até ao dias de hoje, quando já se respira novamente Liberdade e acima de tudo Humanidade. E só sobrou este fragmento. O resto foi destruído por humanos que, a mando de um algoritmo de Artificial Intelligence ordenou que tudo o que aquelas pessoas tivessem produzido deveria ser comprovadamente destruído, uma vez que punha em sobressalto a humanidade. Já naquele tempo, as pessoas, tinham perdido o conceito entre real e virtual. Ao fim do dia, já não sabiam se tinham estado, mesmo, com outra pessoa, ou se só tinham estado virtualmente, através dum smartphone, numa rede social qualquer. Ninguém se apercebeu muito muito bem quando deixaram de conviver uns com os outros, quando deixaram de estar com os seus amigos familiares e colegas. Puff! Aconteceu. As pessoas eram muito amigas virtualmente, mas não se enxergavam quando se encontravam ao lado dumas das outras. Umas vezes, portavam-se com indiferença, faziam de conta que não se viam umas às outras; outras vezes, até se afastavam, tamanho era a repulsa que sentiam umas das outras. O mundo passou a ser feito de pessoas simpatiquíssimas com uma máquina na frente, mas muito egoístas, agressivas e distantes, quando estavam ao pé uma das outras e… nem se falavam. As pessoas, primeiro nos grandes centros urbanos e, posteriormente em toda a parte, sem se darem conta disso, começaram a ficar ainda mais sozinhas, apesar de estarem ao pé umas das outras. A educação familiar, sofreu um grande revés pois, com a desculpa do stress e do burnout, a indiferença e a AVR (addiction on virtual reallity), fez com as pessoas perdessem o sentido de orientação e responsabilidade. A situação tornou-se tão dramática que os pais deixaram de ter paciência para estar com os filhos a conversar, a ler um livro, a fazer uns desenhos ou brincar, tendo banido todas estas actividades. O absurdo chegou ao ponto de, o mais elementar gesto de carinho que uma criança podia receber para as acalmar, que era uma chupeta, passou ser um smartino que não era senão um smartphone com diversos gadgets adaptado a crianças. Incluindo a chupeta. Em casa e nos restaurantes, as pessoas não conviviam com as pessoas que estavam sentadas com elas à mesa. Intercalavam a sua atenção com breves olhares para um mal muito mais antigo – a televisão – com o constante consumo das redes sociais (vá-se lá saber porque lhe chamam isso). De vez em quando, lá uma pessoa interagia com outra, não para lhe dizer qualquer coisa, mas para lhe por à frente da cara, o seu smartphone, com o volume no máximo, para lhe mostrar um tik tok qualquer, de dez segundos, e depois rirem-se juntos sem maneiras nenhumas. Quando vinha a comida, limitavam-se a pôr os smartphones ou tablets ao lado do prato, comendo só com uma mão – não viam bem o que é que comiam, enfardavam – e com a outra, iam scrollando o aparelho, a ver as – mais miseráveis e tristemente classificadas de importantes e inadiáveis à sua existência – fake news do momento. Nas ruas, à semelhança das ciclovias, as cidades passaram a ter as slow lanes, que eram vias especiais onde as pessoas podiam andar e a consultar o smartphone ao mesmo tempo, sem qualquer ipo de preocupação, bastando para o efeito ter um gadget chamado 4my2 (acrónimo de for my tour) que era posto à cintura que sincronizava com diversas apps de mapas e GPS. As pessoas escolhiam o destino e podiam ir descansadas, de pescoço curvado até ao destino, porque o gadget se encarregava de as levar até lá e em segurança. A determinada altura desta evolução tecnológica, o Instituto Europeu de Estatística apresentou um relatório anual muito importante e, pela primeira vez, o tema principal não era nem finanças nem economia. Do que é que tratava o relatório? O assunto do relatório era o crescimento das pessoas. Pela primeira vez, em décadas, o crescimento das pessoas tinha diminuído. Estava o relatório a falar de demografia? Não, não se tratava de demografia: as pessoas, em todos os géneros, raças e estratos sociais, tinham diminuído, em média, cinco centímetros, na sua altura. Esse mesmo relatório, apoiado em estudos científicos, informava ainda que essa diminuição da altura das pessoas, se devia a uma rapidíssima alteração genética, em que as pessoas passaram a nascer, já com o pescoço virado para baixo para melhor se adaptarem à leitura dos smartphones. O mundo passou a ser maioritariamente corcunda, ou em vias disso. Havia organizações que lutavam para que fosse criada uma lei em que fosse proibido o uso de smartphones em lugares públicos, no sentido de tentar reverter a situação, tendo proposto inclusivamente a criação dum Dia Europeu da Empastelação Eletrónica. Nunca o conseguiram. As organizações que inicialmente apoiavam as pessoas que, cientifica e comprovadamente, estavam viciadas no uso do smartphone, encerraram. Os governos decretaram então, que o que era um vício, passou a ser considerado, pela ordem dos médicos psiquiatras, uma situação de normalidade adquirida irreversível. Esta decisão, apareceu no decurso, de parecer idêntico da ordem dos médicos ortopedistas que validaram as corcundas como um estado humano natural, normal e irreversível. Assim, tal como os negacionistas climáticos, passou a haver o negacionismo ao dano colateral eletrónico. Ainda houve quem tentasse criar gadgets para smartphones e outros aparelhos similares, tendo em vista a descorcundarização das pessoas, mas foram impedidos por causa do aparecimento dum partido radical que obrigou a um referendo europeu, a impor que fosse alterada a declaração universal dos direitos da humanidade, para que as pessoas não fossem descriminadas não só em razão da raça, cor, origem étnica ou nacional, religião, sexo, orientação sexual ou identidade de género e – consagrado agora – em razão da corcunda. No seguimento das linhas inovadoras, nomeadamente nas linha das novas técnicas de extração e transformação de energias fósseis, recuperação, em cloud, da memória dos recém falecidos, o governo começou a subsidiar startups para que apresentassem uma app e respectivo gadget para a implementação, aplicação e gestão de implantes focais, como se de um chip se tratasse. O implante era aposto nos olhos das pessoas, logo a partir do momento em que fossem para o jardim de infância, potenciando assim um extraordinário industrial cluster, com vocação exportadora, em diversas concentrações populacionais. Pretendiam os governos com esta medida, que as pessoas pudessem ter uma visão do mundo mais em conformidade com aquilo que deveriam ter. Ao contrário do que normalmente acontece com as apostas e previsões dos governos, esta revelou-se bastante acertada proveitosa, tendo em conta os resultados de exploração, indo inclusivamente muito para além das previsões, chegando várias empresas a tornarem-se Unicorneas – e não Unicórnios, dado ao óbvio do assunto. Neste campo, a ciência evoluiu tanto, que o must era uma aplicação que permitia as pessoas não abrirem os olhos, e ainda assim conseguirem ver. Mas, tal como a pólvora com os chineses, o dinamite com Nobel e o uso da energia nuclear para fins pacíficos, que cedo passaram a ter finalidades belicosas, também aqui, as boas intenções ficaram imediatamente arredadas, com o aparecimento dum mercado de aquisição de olhos. Os olhos passaram a ser coqueluche de degustação nos darkrestaurants, que a exemplo da darknet, só os mais poderosos ou endinheirados tinham entrada neles. Anualmente havia a atribuição dos Olhos Michelin. Com a humanidade a transformar-se e a concepção do que eram valores éticos e morais a ficarem irremediavelmente perdidos, um outro estudo cientifico, chegou à alarmante conclusão que grande parte da humanidade já não falava. Verbalizava quase guturalmente, isso sim, comandos através da cortana, siri, alexa, bixby, google assistant ou robin. As pessoas tinham deixado de falar entre si! Descobriram ainda que, já há décadas, havia um estudo a prevenir essa mesma situação, mas mais uma vez os negacionistas e a burocracia tinham vencido, ostracizando o grupo de falantes sem intermediários. Esse grupo, andou anos e mais anos a pretender que as pessoas falassem umas com as outras, inclusivamente com elas próprias, mas os resultados foram sempre muito desanimadores. Apareceu até um movimento, o #despreze-OS que tinha como finalidade denunciar e marginalizar as pessoas que gostavam de falar entre elas. Nas escolas, os professores já não precisavam de falar – nem ser muito inteligentes – pois os alunos já usavam tudo o que os governos indicavam ou forneciam – e rotulado convenientemente como mais importante, mais eficiente e inteligente – nomeadamente o formato e o conteúdo das matérias que chegavam direitinhas aos seus capacetes 3D Artificial Intelligence e às suas mesas e quadros interactivos. Havia famílias inteiras que moravam juntas mas não conviviam entre si, nem se falavam. Sempre que alguém quisesse falar, levava logo o epíteto de #linguanegra da família; e ser nomeado o #língua negra era mesmo muito mau. Entretanto, os jovens casais, sempre à frente na experimentação, sem querer saber aquilo que a história lhe poderia ter ensinado se tivessem prestado atenção, comunicavam praticamente com emojis e, ultimamente, quando estavam em afastados uns dos outros, com smellhojis, que era uma app nova, que consistia em partilhar cheiros. Ainda não estava muito evoluido, porque não permitia ao destinatário, rejeitá-los à priori, de maneira que se viesse de um desconhecido, poderia causar bastantes problemas, se estes fossem enviados com fins maliciosos. Clandestinamente, começou a haver um grande consenso cientifico em volta desta importante matéria que era as pessoas não falarem, havendo já quem projectasse que mais dia menos dia, como as pessoas não falavam entre si, a língua fosse oficialmente declarada não necessária. Nesse dia, ou mesmo antes disso, alguém já teria feito um forte investimento em criar uma app que, a exemplo dos olhos, serviria – voluntariamente, é claro – para implantar línguas artificiais às pessoas, retirando-lhes as verdadeiras, indo estas, consequentemente, entre outras finalidades, parar aos darkrestaurants da moda (saia uma língua holandesa! – pediriam os clientes – Tenho aqui uma d’Amesterdam que você nem imagina!)
Os cientistas, um grande movimento de cientistas, reunindo-se e trabalhando na clandestinidade – tinham de ter muito cuidado, não fosse acontecer ao mesmo que aos seus colegas décadas atrás – começaram a delinear um programa que fizesse entender às pessoas que tanta net, tanta artificial intelligence, tanto gadget e tanta aparelhagem associada, estava a levar a humanidade para a perdição. As pessoas tinham de recomeçar a falar. Era importantíssimo que isso voltasse a acontecer. Havia a necessidade de fazer entender às pessoas que tinham de falar entre elas, mas não havia nada que as levasse a fazê-lo, para desespero de quem queria, gostava de falar e não tinha com quem. Os que gostavam de falar insistiam constante, mas cautelosamente, com as pessoas que não falavam – não se podia saber que estavam na lista dos que eram #línguanegra – desdobravam-se em acções, mas o resultado era o mesmo: ou falavam para as máquinas através dos smartphone ou então não falavam. Mas se a humanidade continuasse assim, algo de irremediavelmente mau acabaria por acontecer. Mas antes que isso acontecesse, finalmente, os cientistas que trabalhavam na clandestinidade, apoiados por pessoas que gostavam ou tinham mesmo necessidade de falar, conseguiram criar um software para um super-gadget-app-cósmico-quântica que, introduzido sub-repticiamente, nas máquinas das pessoas, fez com que milhares e milhares de delas sem saber como, fosse parar a uma ilha no meio dos oceanos.
De início, ninguém se apercebeu onde estava, o que estava ali a fazer e como tinham ido ali parar. Estavam como zombies, a olhar desconfiados para todos os lados à procura de respostas. Aconteceu então o primeiro momento de pânico colectivo: foi quando se aperceberam que não tinham consigo nem telemóveis, nem smartphones, tablets, laptops, ou qualquer outro aparelho. Desesperados, começaram a andar de um lado para o outro, uns desmaiaram, outros começaram a correr até cair, repuxavam os cabelos – quem os tinha – gritavam, berravam, mas falar… nada. Passado esse momento, cada um por si, começou a procurar algo que pudesse comer, mas não havia. A noite estava a chegar e começava a estar frio, mas ninguém foi apanhar lenha para fazer uma fogueira, nem se juntaram uns aos outros para, em grupo, poderem amenizar a situação. Acordaram de manhã, todos enroscados sobre si mesmos, em posição fetal, mas como ilhas. O frio ia passar porque o sol nascia, mas a fome aumentava. Estavam todos com muita fome. Havia árvores de fruto com bastante fruta, mas limitavam-se a olhar, à espera que os frutos caíssem. Eles não caíam. De vez em quando, apareciam uns bandos de macacos que subiam às árvores, apanhavam a fruta e comiam mas, nem mesmo assim, aquelas pessoas acharam que a fruta estava ao alcance delas, bastando para isso imitá-los. Passaram-se vários dias sem que nada fizessem para a sua sobrevivência. Nem sequer começaram a falar uns com os outros. Mas começaram a ficar à espera dos macacos que vinham várias vezes ao dia apanhar frutos. Os macacos acharam piada à reacção dos humanos. Quando um deles deixou cair um fruto, correram todos, ao mesmo tempo, em direcção ao fruto a ver quem é que o apanhava. Ninguém conseguiu ficar com nada pois o fruto ficou desfeito. A partir daquele dia, os macacos vinham divertir-se com aquelas pessoas que estavam na ilha no meio dos oceanos. Os cientistas que trabalhavam na clandestinidade, apoiados por pessoas que gostavam ou tinham mesmo necessidade de falar, que monitorizavam a situação, chegaram à conclusão que o mero facto de, aquelas pessoas, estarem numa ilha deserta, sem os seus gadgets, com frio e fome, por si só, não os ia pôr a falar com elas próprias. Por isso, numa noite, quando todos dormiam, fizeram a instalação duma grande cabine eletrónica na praia. De manhã quando as pessoas acordaram ficaram muito admiradas e, algumas até sorriram. Esse sorriso foi registado nos aparelhos dos cientistas com o mesmo grau de importância de um abalo sísmico. Renasceu a esperança. A Cabine, era na verdade uma réplica da super-gadget-app-cósmico-quântica que tinha sido responsável pela viagem daquelas pessoas até li. Pretendia-se agora, através de estímulos, que as pessoas recomeçassem a falar. A Cabine ia cumprir um papel fundamental. Era simples, alta, redonda, em forma de cúpula, cor branca e tinha três portas que se encontrava hermeticamente fechadas. Ao lado das portas, havia um painel eletrónico luminoso de cor vermelha. As pessoas passaram a andar às voltas a ver se acontecia qualquer coisa, mas nada. Os dias passavam-se iguais. Os macacos a brincarem com os humanos, fornecendo-lhes fruta e os humanos passavam os dias a andar à volta da Cabine. Um dia, um grupo de três ou quatro macacos, encavalitaram-se e o que estava no topo pôs a pata no painel eletrónico. O painel emitiu um som, ficou verde, a porta abriu-se, os macacos entraram e a porta fechou-se. As pessoas estavam todas de boca aberta. Mas, tão depressa a porta se fechou como se abriu e os macacos saíram de lá a correr e a guinchar. De imediato, as pessoas que estava na ilha deserta, quiseram imitar os macacos, pondo as mãos nos painéis eletrónicos que estavam à volta da porta, mas não aconteceu nada. Tentaram, tentaram, mas nada. À noite, quando estavam todos a dormir, uma dessas pessoas levantou-se devagarinho e foi para o pé da primeira porta. De seguida, chegou outro, e foi para o pé da segunda porta. Seguiu-se um terceiro que se foi colocar em frente da terceira porta. Cada um por si, colocou a mão no painel eletrónico, o painel emitiu um som, ficou verde, a porta abriu-se, e aquelas três pessoas entraram. As portas fecharam-se imediatamente. No interior da Cabine, cada uma daquelas pessoas estava dentro de um compartimento estanque, de vidro, não podendo por isso entrar em contacto com outra. Elas viam-se umas às outras, mas não mantinham qualquer contacto visual. De repente começou a haver um jogo de luzes que tentava direccionar a cara das pessoas para que cada uma ficasse de frente para a outra. As luzes da Cabine bem trabalhavam, mas aqueles três representante da raça humana, além de não falarem, eram teimosas. Olhavam para baixo e acendia-se uma luz forte que as impedia de o fazer. Olhavam para cima e logo se acendia outra luz. Olhavam para os lados, idem. Até que o único lugar que tinham para olhar, era em frente, uns para os outros. Mas nem mesmo assim. Quando estabeleciam contacto visual, fechavam os olhos. Nessa altura, dentro da Cabine, deu-se um estampido, apanharam um choque elétrico, as portas abriram, as três pessoas foram expelidas e as portas fecharam-se. Estas pessoas não contaram nada da sua experiência às que estavam cá fora, nem estas lhes perguntaram. Teimosia, arrogância, egoísmo e sobranceria não lhes faltava. E ainda por cima mantinham na postura de não falar. Todas as pessoas da ilha passaram pela mesma experiência, sendo sempre o mesmo resultado: mão no painel eletrónico, entrada, evitar luzes, evitar contacto visual, fechar olhos, estampido, choque elétrico, abertura de porta, expelição, fecho de porta. Apesar de tudo, todos os dias haviam sempre alguém que continuava a entrar na Cabine e a passar por aquela experiência, pois no fundo, cada um por si, acreditava que a resposta ao que estava a acontecer passava por ali e por isso insistiam. Um dia, três delas, em vez de fecharem os olhos estabeleceram contacto visual. A Cabine, seguindo o algoritmo estabelecido, parecendo que agia como que a agradecer, abriu uma portinhola em cada um dos compartimentos. Nessa portinhola estava um livro, um caderno, lápis e um preparado alimentício que a NASA usava nas suas viagens cósmicas. As portas abriram-se e uma voz feminina, muito suave e educada disse: agora, façam o favor de sair. Assustaram-se com o som da voz, mas perceberam e saíram. Cá fora ficaram todos com inveja daquelas três pessoas por terem um caderno, lápis e um preparado alimentício que a NASA usava nas suas viagens cósmicas. Mas nem eles disseram o que fizeram, nem as outras pessoas lhes perguntaram. E assim continuaram mais uns dias, semanas, com os macacos já a perderem o interesse da brincadeira da fruta e cada vez mais pessoas a conseguirem o caderno, lápis e o preparado alimentício que a NASA usava nas suas viagens cósmicas. Um dia, uma das três pessoas que estava na cabine, depois de ter recebido um caderno, lápis e um preparado alimentício que a NASA usava nas suas viagens cósmicas, sabendo que a Cabine os ia dizer para sair, antecipou-se e disse, antes que a máquina o fizesse, agora, façam o favor de sair. E a máquina respondeu: muito bem, é a falar que as pessoas se entendem. Sim, e agora podem sair. E os três saíram, espantados com o que se tinha passado. Vinham a sorrir, o que deixou todas as outras pessoas intrigadas. Passados muitos mais dias, aos cientistas que trabalhavam na clandestinidade, apoiados por pessoas que gostavam ou tinham mesmo necessidade de falar, que monitorizavam a situação, chegou-lhes finalmente o que tanto estavam à espera. As três pessoas que entraram na Cabine, fizeram contacto visual, olharam francamente umas para as outras e uma delas disse:
- Olá.
- Olá. – Respondeu-lhe a segunda, perante o espanto da terceira, que não teve tempo de articular nada porque nessa altura a Cabine escureceu e, quando as luzes acenderam, ele estava sózinho nela. Ficou estupefacto. A Cabine convidou-o a sair e ele saiu. Muito sério, devagar, dirigiu-se a duas pessoas, agarrou-as pela mão, e levou-as para a Cabine. Quando os três estavam lá dentro falou:
- Olá. – Mas não ouviu qualquer reacção das outras duas pessoas.
- Olá! – Insistiu. – Mas o silêncio manteve-se. As outras duas pessoas encolhiam os ombros e nada faziam. Já em desespero disse, com a voz muito calma:
- É a falar que as pessoas se entendem. Naquele momento a Cabine ficou escura. Quando as luzes se ligaram só estavam os dois que tinham ficado calados. Esses mesmos, quando saíram da cabine, em vez de avisarem todos o que se estava a passar para finalmente todos perceberem o que tinham de fazer, que era falar, nada fizeram. Cada uma daquelas almas era suficientemente arrogante, individualista e muito estúpida para querer dar o passo em frente.
Numa manhã muito bonita, um dos humanos acordou, foi para o meio das pessoas todas e começou a dizer:
- A falar é que a gente se entende! – mas não obteve qualquer resultado, insistiu. – A falar é que a gente se entende!
Falou mais alto.
- A falar é que a gente se entende! – ouviu-se um burburinho.
- A falar é que a gente se entende! – falou ainda mais alto, iniciando uma corrida louca em volta das pessoas a repetir-se. Repentinamente, como o trovão duma tempestade, ouviu-se um coro uniforme d emilhares de pessoas que há decadas que não falavam:
- A falar é que a gente se entende!
          - A falar é que a gente se entende!
                    - A falar é que a gente se entende!
Os cientistas que trabalhavam na clandestinidade, apoiados por pessoas que gostavam ou tinham mesmo necessidade de falar, perante aquele resultado rejubilaram de alegria:
- As pesoas já falam, e mais, já falam entre si.
Depois de falarem umas com as outras e perceberem o mecanismo da Cabine, cada um daquelas pessoas regressou à sua origem.
O que elas não tinham percebido é que vinham da ilha contaminadas com um virus que fazia com que rejeitassem qualquer tipo de comunicação que pusesse em causa a existência da linguagem oral.
Com o regresso às origens, os cientistas que trabalhavam na clandestinidade, apoiados por pessoas que gostavam ou tinham mesmo necessidade de falar, puderam, pela primeira vez, ter um sono descansado.
Mas…

[Bzzt… Bzzt...Bip, bip, bip. Connection. Humanos em descanso. Action! Action!]

[Bzzt…連接]
[बज़्ट ... बज़ट ... बिप, बिप, बिप। कनेक्शन।
 [Bzzt… Bzzt...Bip, bip, bip. Connection. Humanos em descanso. Received! ]
[Bzzt...Бип, бип, бип. Подключение. Получили!]
[ Bzzt… Bzzt...Bip. Copy.]
[Bzzt… All points sincronized!]
[Bzzt모든 포인트가 동기화되었습니다!]

Encontro com o Tempo


Foto: Craig Mason

Uma estória sobre uma menina que queria muito
estar preparada para o Futuro

Era uma vez…

A Mafalda nasceu rechonchuda e rosadinha, num dia de muito sol, com temperatura amena e com os passarinhos a chilrear. As flores, atrevidas, não tinham vergonha em mostrar as suas lindas e exuberantes cores e formas, enquanto as abelhas zumbiam à sua volta, atarefadas, à procura do melhor néctar para levarem para as suas colmeias. O dia que a Mafalda nasceu, foi o dia mais feliz das nossas vidas, disseram os pais dela. A Mafalda, uma menina bonita e perfeita – como toda a gente dizia – cresceu, como todas as crianças deviam crescer. Cresceu com saúde, alegria, com muitas amigas e amigos, muita energia e sobretudo muita curiosidade. A felicidade que a Mafalda transmitia aos pais, era também partilhada por todos que a rodeavam, pela família, pelas amigas, vizinhos, enfim por toda a gente. Onde estava a Mafalda havia sempre cor, luz, alegria, animação.
A Mafalda cresceu e, quando chegou a altura de ir para a escola, como todas as crianças, estava muito ansiosa, mas também com muita curiosidade e vontade de arranjar novas amigas, de ir conhecer novas pessoas, novos colegas e aprender muitas coisas. E conseguiu isso tudo. A Mafalda quase não tinha tempo para poder ter tantas amigas e amigos e partilhar os seus gostos e atividades com eles.
Conforme a Mafalda foi crescendo, os pais começaram a falar-lhe do Futuro.
- Tens que te dedicar mais aos estudos Mafaldinha, pois só assim podes garantir o teu Futuro – diziam os pais.
- Sim paizinho. Sim mãezinha – dizia a Mafalda, sem perceber muito bem o que era aquilo de se preparar para o Futuro. O que ela mais gostava era de estar com as amigas e amigos, com a família, de ir passear com os pais, ir à praia e ao campo, ter actividades fora de casa, enfim estar sempre ocupada. Também gostava muito de ler, e se não podia estar mesmo com as amigas, conversava com elas pelo Skype, Instagram ou Whatsapp. Também gostava de andar de bicicleta, de ouvir música e sim, também gostava de estudar e de ter boas notas.
Conforme a Mafalda foi crescendo, os pais, vendo que ela, apesar de ser boa aluna, boa menina e muito disciplinada, acharam que ela podia aperfeiçoar-se. Começaram a insistir com ela, dizendo que se quisesse ter um Futuro melhor, teria que deixar de andar a perder tempo a brincar e a fazer outras coisas fora de casa que não fosse na escola e a estudar. E a estudar; e a estudar…
- Só assim conseguirás um Futuro brilhante. Um Futuro risonho. Um Futuro onde tu poderás ser e fazer tudo o que quiseres. Se perdes tempo com as pessoas e com brincadeiras não chegas lá! – diziam constantemente os pais da Mafalda.
- Mas assim eu não consigo brincar com ninguém, deixo de ver e estar com as minhas amigas! – queixava-se a Mafalda inúmeras vezes. Mas os pais eram categóricos.
- Tens que te preparar para o Futuro minha filha, tens que te preparar para o Futuro e, a única maneira de isso acontecer é dedicares-te a estudar.
A insistência dos pais da Mafalda foi tanta, que ela, como adorava os pais e não querendo desiludi-los, apesar de contrariada e triste, acedeu.
Ela interiorizou, e assumiu como sua, a opinião dos pais em relação ao Futuro. Porque era uma coisa muito importante, dedicou-se então completamente a preparar o seu Futuro.
Os tios e os primos convidavam-na para sair, para passear, mas a Mafalda, muito disciplinada a preparar o seu futuro, nunca se desviou da sua conduta.
- Desculpa mas não posso ir. Tenho de estudar e preparar o meu Futuro – dizia a Mafalda.
- Anda lá Mafalda, anda lá andar de bicicleta um bocadinho connosco – convidavam-lhe as amigas e colegas – vem apanhar um bocado de sol que o dia está tão bonito.
- Não posso! Não Posso! Não posso! Era a esta a resposta típica da Mafalda. E assim, os tios e primos foram as primeiras pessoas a desistirem de estar com ela.
O Futuro, e só o Futuro, era o seu objectivo. Passaram mais anos ainda, e a Mafalda manteve aquela fixação que lhe tinha sido induzida pelos pais e assumida por ela.
- Gostamos muito de ti Mafalda – diziam constantemente os pais.
- Eu também – dizia a Mafalda.
Por causa da sua recusa em estar com as pessoas, deixou de ter amigos, e os poucos que ainda restavam e que, de vez em quando, tentavam falar com ela, ao verem-na só preocupada com o Futuro, desoladas, acabavam também por a abandonar. Às vezes, desabafava com os pais, que se calhar estava muito sozinha, não tinha amigas e que já não via a família há muitos anos, que os avós já tinham partido e ela mal se tinha apercebido. Mas os pais, diziam-lhe sempre que ela estava no bom caminho e que assim é que estava preparar bem o Futuro. Que no Futuro podia ser e fazer tudo o que ela quisesse. Poderia então passear, sair com as amigas, viajar e até ter um cão… E ela, por amor aos pais, foi-se conformando sempre com aquilo que os pais lhe diziam.
Um dia, sem se fazer anunciar, o Futuro chegou.
O Futuro bateu à porta e, a Mafalda que tinha passado os anos todos da sua vida a preparar-se para ele, não o conheceu e por isso assustou-se.
- Então Mafalda, não me conheces? – perguntou-lhe o Futuro – Tens andado estes anos todos a preparar-te para mim e agora que eu cheguei tu não me conheces?
A Mafalda olhou para o Futuro e vendo uma figura velha, sem saber ser era homem ou mulher, sem brilho nos olhos, os cabelos desgrenhados, cheia de rugas na cara e o corpo todo curvado, não gostando nada do que viu, ficou muito desconfiada. Passados alguns minutos, depois de ganhar coragem perguntou:
- Mas, se o Senhor é o Sr. Futuro, porque é que é assim tão velho? Eu pensava que para se ser Futuro tinha que se ser novo, bonito, cheio de energia, com amigos à volta, com alegria, a divertirem-se…
- Pois é isso que eu sou: novo, bonito, cheio de energia, com amigos à minha volta, com muita alegria, e a divertir-nos sempre que podemos.
- Olha, o Senhor não pode ser o Sr. Futuro. E não sei porque é que está a mentir-me. Aquilo que eu vejo não é nada disso que está praí a dizer! – disse a Mafalda muito empertigada.
- Ó menina Mafalda! Estás completamente enganada! Isso de que tu estás a falar não é o meu retrato. Eu, na verdade, é como te digo: sou jovem, bonito, com energia e tenho muitas pessoas amigas.
A Mafalda não queria acreditar que aquele que dizia ser o Futuro podia estar a ser tão mentiroso. E o Futuro continuou.
- Os meus melhores amigos e amigas foram-me apresentados pelo Sr. Passado. O Sr. Presente também me acabou de apresentar algumas pessoas novas e eu vou ter que me empenhar para elas também ficarem minhas amigas. Todas elas são minhas amigas porque eu sempre as respeitei, brincámos juntas, partilhámos os nossos problemas e encontrámos soluções, vivemos as nossas alegrias e tristezas, passámos maus momentos em que nos apoiámos e por bons momentos em que nos divertimos muito, enfim, fiz belas amizades e por isso, sempre que preciso de alguma coisa delas, sempre que preciso das pessoas minhas amigas, posso sempre contar com elas; e elas comigo.
Estas palavras do Futuro deixaram a Mafalda muito intrigada.
- Desculpa lá, ó Sr. Futuro, mas eu não conheço nenhum Sr. Presente e muito menos um Sr.Passado. Os meus pais só falavam no Futuro. Eu só ouvi falar no Futuro, eu sempre me dediquei a estudar e a trabalhar para ter um Futuro risonho e brilhante e por aquilo que estou a ver, você não é o meu Futuro. Por isso não sei do que falas nem me interessa. Vou ficar aqui a lutar pelo meu Futuro e quando ele chegar de certeza que o reconhecerei. A Mafalda falava, falava, sem perceber muito bem o que estava a acontecer.
- Além disso – continuava a Mafalda – não vejo aí nada do que me acabaste de dizer que eras. Onde estão essas pessoas todas que dizes o Sr. Passado e o Sr.Presente te apresentaram, que tu as respeiteitaste, que brincaram juntas, partilharam os vossos problemas e encontraram soluções, com quem viveram as vossas alegrias e tristezas, que passaram maus momentos em que se apoiaram e que passaram por bons momentos em que se divertiram muito e que tu dizes que são muito tuas amigas, que eu não vejo ninguém?
- Pois eu te garanto que elas estão aqui comigo. Fazem parte de mim. Sem elas eu não consigo viver.
- Pois és um grande mentiroso, porque eu só vejo uma figura velha…
- Eu posso explicar-te – o Futuro ia a falar mas a Mafalda não deixou.
- E porque é que dizes que és jovem e cheio de energia, se eu só vejo uma figura velha, cheia de rugas, nem sei se é homem ou mulher, só vejo uma figura feia, corcunda, e com os os cabelos desgrenhados e maltratados? Porque é que mentes? O Futuro, pacientemente aguardava que a Mafalda lhe desse espaço, que não inperrompesse, para lhe poder explicar tudo. Mas a Mafalda parecia estar em negação.
- Eu posso explicar-te Mafalda.
- Então explica! – disse a Mafalda com muito má educação.
- Pois bem Mafalda. O que se passa é o seguinte: quando o Futuro vem ter connosco, aquilo que nós vemos não é o Futuro. Aquilo que nós vemos é a nossa figura, a nossa imagem. Aquilo que vemos é exatamente aquilo que somos. Aquilo que tu estás a ver não é o Futuro; aquilo que estás a ver é o Presente. Por isso essa figura velha, cheia de rugas, que não sabes se é homem ou mulher, feia, cabelos desgrenhados e maltratados e corcunda, és tu Mafalda. É o Presente, o teu Presente; um Presente sem Passado. Eu, enquanto Futuro sou jovem, bonito, com energia e tenho muitas pessoas amigas e outras à minha espera. Mas eu agora enquanto estou contigo já não sou o teu Futuro. Foi isso que eu te vim cá dizer. Mas tu, Mafalda, como viveste só para um Futuro que tu sonhaste, que nunca ligaste ao Passado desprezando sempre o Presente… acontece que sem Presente não há Passado. Ora é o Passado e o Presente, juntos, que fazem o Futuro. O Futuro que tu sempre quiseste ter, é agora o teu Presente, és agora a imagem de ti mesma: essa figura velha, cheia de rugas, que não sabes se é homem ou mulher, feia, cabelos desgrenhados e maltratados e corcunda.
- Então porque é que dizes que és jovem, bonito, com energia e tens muitas pessoas amigas e outras à tua espera? – perguntou a Mafalda.
- É que eu vim cá anunciar que vais deixar de ter Futuro. E vou ser o Futuro de pessoas que me mereçam mais. Eu quis ser teu Futuro, pois tu, no início, foste muito promissora, mas depois tornaste-te arrogante, egoísta, mesquinha, sem humanidade nenhuma. Já não consigo aturar-te mais nenhum dia. Se quiseres pensar em ter um Futuro, outro Futuro que não eu, é melhor que comeces a dar mais atenção ao Presente, ser amiga das pessoas, tratar bem os mais velhos, ter um cão… Olha, Carpe Diem!
A Mafalda, posta perante esta revelação, apercebeu-se finalmene que não tinha gozado a vida e que a vida tinha passado por ela. Lembrou-se então de todas amigas, colegas, familiares que desprezou e ignorou. As palavras daquele Futuro ainda lhe martelavam na sua cabeça: essa figura velha, cheia de rugas, que não sabes se é homem ou mulher, feia, cabelos desgrenhados e maltratados e corcunda, és tu Mafalda. A cabeça da Mafalda trabalhava agora a mil à hora. Como é que ela nunca se apercebeu que o Futuro começava com o Presente, para assim, ter um Passado que a alimentasse e que ela tinha desperdiçado tudo? Finalmente, quando deixou que a arrogância, sobranceria e superioridade que a acompanhou toda a vida fosse substituida pela humildade, começou a chorar. Chorou muito. Chorou alto. Chorou de desespero, de tristeza e de de arrependimento por ter desprezado a sua família, as suas colegas, as suas amigas e que nem sequer tinha chegado a ter um cão.
- Nem sequer um cão tive! – gritou a Mafalda.
Foi então que sentiu uma mão forte, mas carinhosa, a agarrar na sua e lhe disse baixinho ao seu ouvido:
- Acorda, Mafalda.
E, a partir deste dia, nenhuma menina chamada Mafalda pensou mais no futuro, sem ter os pés bem assentes no presente e respeito pelo passado. 

A Nuvem das Promessas


 Foto: Anatar


Uma estória para crianças crescidas
ou, crescidos que ainda são crianças


Era uma vez...

Um grupo de meninas e meninos recebeu a visita de uma estranha e intrigante personagem que parecia estar zangada com eles.
Seria porque as meninas e meninos eram maus?
Ou… porque se portavam mal?
Eram desobedientes?
Não Faziam os trabalhos de casa?
Será que tratavam mal os pais, colegas, professores, amigos, amigas,  primos, primas, tios, tias ou avós?
Ou então não tomavam banho, nem lavavam os dentes?
Não. Essas meninas e meninos faziam tudo bem.
Eram exemplares.
Eram tão exemplares, mesmo tão exemplares, que ninguém tinha inveja deles.
Eram o orgulho de todos: dos pais, professores, amigos, amigas, primos, primas, tios, tias ou avós e até das pessoas que conheciam pela primeira vez.
Estas meninas e meninos, eram tão exemplares, mesmo tão exemplares, que os pais professores, amigos, amigas, primos, primas, tios, tias ou avós e até as pessoas que conheciam pela primeira vez, lhe estavam sempre a dizer que eles mereciam isto, mereciam aquilo e mais aquilo. Mas, como eram exemplares, diziam que eram assim, porque achavam que todas as pessoas deviam ser assim.
Os pais dessas meninas e meninos, gostavam tanto deles, mas mesmo tanto, que estavam sempre a prometer coisas, apesar dessas meninas e meninos estarem sempre a dizer que não queriam nada.
E a situação repetia-se sempre que chegava uma boa nova aos ouvidos dos pais dessas meninas e meninos: mal chegavam a casa, eram recebidos com muita alegria e, sem pedissem, os pais prometiam mais alguma coisa.
E hoje, essas meninas e meninos, tiveram então, a visita da tal estranha e intrigante personagem. E a estranha e intrigante personagem falou-lhes assim:
- Eu sou a Nuvem das Promessas. Tenho três cores: branca quando estou contente, cinzenta quando estou desconfiada e preta quando estou zangada. E quando estou mesmo muito zangada eu nem sei como fico!
- Pela cor que tens agora parece que estás desconfiada, disseram as meninas e meninos exemplares.
 - É verdade – disse a Nuvem das Promessas. – Ando a ver se as promessas que as pessoas fazem são cumpridas. Normalmente venho ralhar com meninas e meninos que prometem que vão estudar mas não estudam, que vão tomar banho mas não tomam, que dizem que vão lavar os dentes mas não lavam, que prometem que vão passar pouco tempo nas redes sociais ou na consola de jogos, mas não passam, etc., mas vejo que com vocês é ao contrário. – E  a Nuvem da Promessas continuou. – As pessoas que vos rodeiam é que passam a vida a prometer-vos coisas.  E vejo mais –  continuou a nuvem que começava a ficar mais escura – vejo que fazem muitas promessas e não cumprem.
- Mas, ó Sr.ª Nuvem – disseram as meninas e meninos em uníssono – a nós não nos importa. Nós gostamos de ser como somos….
- Sim! Está bem, mas as pessoas não têm de andar a exibir-se a dizer que vão fazer isto e que vão fazer aquilo e depois, nada! Quem promete tem de cumprir.  Quem fala que vai fazer isto e aquilo e não cumpre, não passam de oportunistas! E ainda por cima, quando são essas pessoas que tomam a iniciativa de prometer, sem que ninguém lhes tenha pedido nada!
- Ó Sr.ª Nuvem, agora estás mesmo preta! – Disseram as meninas e meninos exemplares.
- Estou muito zangada! Estou mesmo muitíssimo zangada! Estou muito zangada porque ninguém cumpre o que vos promete! E vocês também deviam estar assim!
Assim que acabou de falar, de repente e inesperadamente, a Nuvem das Promessas soltou um grande raio e um enorme trovão, com um estrondo tão grande, tão grande, que assustou as meninas e meninos exemplares.
- O que é que fizeste Nuvem das Promessas? – perguntaram as meninas e meninos, já refeitos do grande susto que apanharam.
- Soltei uns raios mágicos e, a partir de agora, se todas as pessoas que têm promessas por cumprir não as cumprirem, vão passar andar com uma nuvem à volta da cabeça. – Disse a Nuvem das Promessas com a cor muito zangada. – É para todos saberem quem é que não cumpre as promessas!
- A sério? – perguntaram as meninas e meninos. – E como é que vamos conhecer as pessoas?
A Nuvem das Promessas respondeu:
- Cada nuvem fica com a cara igual à da pessoa. Se a promessa for muito grande, ou muito antiga a nuvem é preta. Se a promessa for média e não é muito antiga,  é cinzenta. As nuvens vão ficando mais claras, conforme as pessoas vão cumprindo as promessas, até que desaparecem, quando as promessas forem todas cumpridas.
- Puxa nuvem, assim parece que ninguém vai fazer mais promessas!
- Quem fizer promessas tem de cumprir! Todos têm de aprender a lição! Não pode haver falsas promessas!
Dito isto, a Nuvem das Promessa desapareceu.
As meninas e meninos exemplares começaram a olhar à sua volta e só viram nuvens nas cabeças das pessoas.
Entretanto, as pessoas, cabeças de nuvem, repararam que aquelas meninas e meninos exemplares continuavam normais, sem nuvens na cabeça. Foram ter com eles e perguntaram:
- Porque é que vocês são os únicos a não terem nuvens na cabeça? – perguntou uma das cabeças de nuvem.
- Porque nós não temos nenhumas promessas para cumprir.
- Então estas nuvens só saem da nossa cabeça, se cumprirmos as promessas que fizemos? – perguntou outra das cabeças de nuvem, muito preocupada.
- Sim, para voltarem ao normal têm de cumprir todas as promessas que fizeram, disseram as meninas e meninos exemplares.
Foram precisos muitos anos para que as cabeças voltassem ao normal. Será que todos aprenderam a lição?
Será que ainda há cabeças de nuvem aqui por perto?