Uma estória sobre pessoas muito cientes da
importância do seu nariz
“Num mundo acelerado, de muita informação a circular e sem aquisição de conhecimento que lhe corresponda, de falta de nível de alguns líderes, de alterações climáticas e a sua negação, proselitismos perigosos e crescentes, o aparecimento – como cogumelos – de novos multimilionários, com a internet cada vez mais rápida e insegura, com as viagens de avião cada vez mais low cost, mundo está cada vez mais pequeno e as pessoas globalizaram-se. Esfumaram-se. As pessoas perderam a consciência de cidadania, da moral, da ética, dos valores universais, consagrados na carta dos direitos humanos, das crianças e ainda de todas as convenções que visam a proteger e tratar os humanos… como humanos. As pessoas deixaram de ligar ao concreto, aos factos assentes em valores civilizacionais, do pensar devagar e agir depressa e em conformidade, para passar a agir sem pensar, por instinto – se é que isso existe nos humanos – ou pura e simplesmente porque sim, ou porque pertence a uma tribo, mesmo sem o saber, agindo em conformidade. As pessoas assumiram o medo de passar por este mundo sem serem notadas e, certamente por isso, faz todos os esforços para que sejam notadas. Aparecer é ser. Ser-se já não tem significado nenhum, porque ninguém é sem aparecer”. O que acabámos de ler é um resumo da conclusão de um estudo sobre os Caminhos da Humanidade, levada a efeito por um grupo de cientistas, poetas, escritores, arquitetos, gente simples, boa e comum. Este fragmento do estudo, esteve bem guardado até ao dias de hoje, quando já se respira novamente Liberdade e acima de tudo Humanidade. E só sobrou este fragmento. O resto foi destruído por humanos que, a mando de um algoritmo de Artificial Intelligence ordenou que tudo o que aquelas pessoas tivessem produzido deveria ser comprovadamente destruído, uma vez que punha em sobressalto a humanidade. Já naquele tempo, as pessoas, tinham perdido o conceito entre real e virtual. Ao fim do dia, já não sabiam se tinham estado, mesmo, com outra pessoa, ou se só tinham estado virtualmente, através dum smartphone, numa rede social qualquer. Ninguém se apercebeu muito muito bem quando deixaram de conviver uns com os outros, quando deixaram de estar com os seus amigos familiares e colegas. Puff! Aconteceu. As pessoas eram muito amigas virtualmente, mas não se enxergavam quando se encontravam ao lado dumas das outras. Umas vezes, portavam-se com indiferença, faziam de conta que não se viam umas às outras; outras vezes, até se afastavam, tamanho era a repulsa que sentiam umas das outras. O mundo passou a ser feito de pessoas simpatiquíssimas com uma máquina na frente, mas muito egoístas, agressivas e distantes, quando estavam ao pé uma das outras e… nem se falavam. As pessoas, primeiro nos grandes centros urbanos e, posteriormente em toda a parte, sem se darem conta disso, começaram a ficar ainda mais sozinhas, apesar de estarem ao pé umas das outras. A educação familiar, sofreu um grande revés pois, com a desculpa do stress e do burnout, a indiferença e a AVR (addiction on virtual reallity), fez com as pessoas perdessem o sentido de orientação e responsabilidade. A situação tornou-se tão dramática que os pais deixaram de ter paciência para estar com os filhos a conversar, a ler um livro, a fazer uns desenhos ou brincar, tendo banido todas estas actividades. O absurdo chegou ao ponto de, o mais elementar gesto de carinho que uma criança podia receber para as acalmar, que era uma chupeta, passou ser um smartino que não era senão um smartphone com diversos gadgets adaptado a crianças. Incluindo a chupeta. Em casa e nos restaurantes, as pessoas não conviviam com as pessoas que estavam sentadas com elas à mesa. Intercalavam a sua atenção com breves olhares para um mal muito mais antigo – a televisão – com o constante consumo das redes sociais (vá-se lá saber porque lhe chamam isso). De vez em quando, lá uma pessoa interagia com outra, não para lhe dizer qualquer coisa, mas para lhe por à frente da cara, o seu smartphone, com o volume no máximo, para lhe mostrar um tik tok qualquer, de dez segundos, e depois rirem-se juntos sem maneiras nenhumas. Quando vinha a comida, limitavam-se a pôr os smartphones ou tablets ao lado do prato, comendo só com uma mão – não viam bem o que é que comiam, enfardavam – e com a outra, iam scrollando o aparelho, a ver as – mais miseráveis e tristemente classificadas de importantes e inadiáveis à sua existência – fake news do momento. Nas ruas, à semelhança das ciclovias, as cidades passaram a ter as slow lanes, que eram vias especiais onde as pessoas podiam andar e a consultar o smartphone ao mesmo tempo, sem qualquer ipo de preocupação, bastando para o efeito ter um gadget chamado 4my2 (acrónimo de for my tour) que era posto à cintura que sincronizava com diversas apps de mapas e GPS. As pessoas escolhiam o destino e podiam ir descansadas, de pescoço curvado até ao destino, porque o gadget se encarregava de as levar até lá e em segurança. A determinada altura desta evolução tecnológica, o Instituto Europeu de Estatística apresentou um relatório anual muito importante e, pela primeira vez, o tema principal não era nem finanças nem economia. Do que é que tratava o relatório? O assunto do relatório era o crescimento das pessoas. Pela primeira vez, em décadas, o crescimento das pessoas tinha diminuído. Estava o relatório a falar de demografia? Não, não se tratava de demografia: as pessoas, em todos os géneros, raças e estratos sociais, tinham diminuído, em média, cinco centímetros, na sua altura. Esse mesmo relatório, apoiado em estudos científicos, informava ainda que essa diminuição da altura das pessoas, se devia a uma rapidíssima alteração genética, em que as pessoas passaram a nascer, já com o pescoço virado para baixo para melhor se adaptarem à leitura dos smartphones. O mundo passou a ser maioritariamente corcunda, ou em vias disso. Havia organizações que lutavam para que fosse criada uma lei em que fosse proibido o uso de smartphones em lugares públicos, no sentido de tentar reverter a situação, tendo proposto inclusivamente a criação dum Dia Europeu da Empastelação Eletrónica. Nunca o conseguiram. As organizações que inicialmente apoiavam as pessoas que, cientifica e comprovadamente, estavam viciadas no uso do smartphone, encerraram. Os governos decretaram então, que o que era um vício, passou a ser considerado, pela ordem dos médicos psiquiatras, uma situação de normalidade adquirida irreversível. Esta decisão, apareceu no decurso, de parecer idêntico da ordem dos médicos ortopedistas que validaram as corcundas como um estado humano natural, normal e irreversível. Assim, tal como os negacionistas climáticos, passou a haver o negacionismo ao dano colateral eletrónico. Ainda houve quem tentasse criar gadgets para smartphones e outros aparelhos similares, tendo em vista a descorcundarização das pessoas, mas foram impedidos por causa do aparecimento dum partido radical que obrigou a um referendo europeu, a impor que fosse alterada a declaração universal dos direitos da humanidade, para que as pessoas não fossem descriminadas não só em razão da raça, cor, origem étnica ou nacional, religião, sexo, orientação sexual ou identidade de género e – consagrado agora – em razão da corcunda. No seguimento das linhas inovadoras, nomeadamente nas linha das novas técnicas de extração e transformação de energias fósseis, recuperação, em cloud, da memória dos recém falecidos, o governo começou a subsidiar startups para que apresentassem uma app e respectivo gadget para a implementação, aplicação e gestão de implantes focais, como se de um chip se tratasse. O implante era aposto nos olhos das pessoas, logo a partir do momento em que fossem para o jardim de infância, potenciando assim um extraordinário industrial cluster, com vocação exportadora, em diversas concentrações populacionais. Pretendiam os governos com esta medida, que as pessoas pudessem ter uma visão do mundo mais em conformidade com aquilo que deveriam ter. Ao contrário do que normalmente acontece com as apostas e previsões dos governos, esta revelou-se bastante acertada proveitosa, tendo em conta os resultados de exploração, indo inclusivamente muito para além das previsões, chegando várias empresas a tornarem-se Unicorneas – e não Unicórnios, dado ao óbvio do assunto. Neste campo, a ciência evoluiu tanto, que o must era uma aplicação que permitia as pessoas não abrirem os olhos, e ainda assim conseguirem ver. Mas, tal como a pólvora com os chineses, o dinamite com Nobel e o uso da energia nuclear para fins pacíficos, que cedo passaram a ter finalidades belicosas, também aqui, as boas intenções ficaram imediatamente arredadas, com o aparecimento dum mercado de aquisição de olhos. Os olhos passaram a ser coqueluche de degustação nos darkrestaurants, que a exemplo da darknet, só os mais poderosos ou endinheirados tinham entrada neles. Anualmente havia a atribuição dos Olhos Michelin. Com a humanidade a transformar-se e a concepção do que eram valores éticos e morais a ficarem irremediavelmente perdidos, um outro estudo cientifico, chegou à alarmante conclusão que grande parte da humanidade já não falava. Verbalizava quase guturalmente, isso sim, comandos através da cortana, siri, alexa, bixby, google assistant ou robin. As pessoas tinham deixado de falar entre si! Descobriram ainda que, já há décadas, havia um estudo a prevenir essa mesma situação, mas mais uma vez os negacionistas e a burocracia tinham vencido, ostracizando o grupo de falantes sem intermediários. Esse grupo, andou anos e mais anos a pretender que as pessoas falassem umas com as outras, inclusivamente com elas próprias, mas os resultados foram sempre muito desanimadores. Apareceu até um movimento, o #despreze-OS que tinha como finalidade denunciar e marginalizar as pessoas que gostavam de falar entre elas. Nas escolas, os professores já não precisavam de falar – nem ser muito inteligentes – pois os alunos já usavam tudo o que os governos indicavam ou forneciam – e rotulado convenientemente como mais importante, mais eficiente e inteligente – nomeadamente o formato e o conteúdo das matérias que chegavam direitinhas aos seus capacetes 3D Artificial Intelligence e às suas mesas e quadros interactivos. Havia famílias inteiras que moravam juntas mas não conviviam entre si, nem se falavam. Sempre que alguém quisesse falar, levava logo o epíteto de #linguanegra da família; e ser nomeado o #língua negra era mesmo muito mau. Entretanto, os jovens casais, sempre à frente na experimentação, sem querer saber aquilo que a história lhe poderia ter ensinado se tivessem prestado atenção, comunicavam praticamente com emojis e, ultimamente, quando estavam em afastados uns dos outros, com smellhojis, que era uma app nova, que consistia em partilhar cheiros. Ainda não estava muito evoluido, porque não permitia ao destinatário, rejeitá-los à priori, de maneira que se viesse de um desconhecido, poderia causar bastantes problemas, se estes fossem enviados com fins maliciosos. Clandestinamente, começou a haver um grande consenso cientifico em volta desta importante matéria que era as pessoas não falarem, havendo já quem projectasse que mais dia menos dia, como as pessoas não falavam entre si, a língua fosse oficialmente declarada não necessária. Nesse dia, ou mesmo antes disso, alguém já teria feito um forte investimento em criar uma app que, a exemplo dos olhos, serviria – voluntariamente, é claro – para implantar línguas artificiais às pessoas, retirando-lhes as verdadeiras, indo estas, consequentemente, entre outras finalidades, parar aos darkrestaurants da moda (saia uma língua holandesa! – pediriam os clientes – Tenho aqui uma d’Amesterdam que você nem imagina!)
Os cientistas, um grande movimento de cientistas, reunindo-se e trabalhando na clandestinidade – tinham de ter muito cuidado, não fosse acontecer ao mesmo que aos seus colegas décadas atrás – começaram a delinear um programa que fizesse entender às pessoas que tanta net, tanta artificial intelligence, tanto gadget e tanta aparelhagem associada, estava a levar a humanidade para a perdição. As pessoas tinham de recomeçar a falar. Era importantíssimo que isso voltasse a acontecer. Havia a necessidade de fazer entender às pessoas que tinham de falar entre elas, mas não havia nada que as levasse a fazê-lo, para desespero de quem queria, gostava de falar e não tinha com quem. Os que gostavam de falar insistiam constante, mas cautelosamente, com as pessoas que não falavam – não se podia saber que estavam na lista dos que eram #línguanegra – desdobravam-se em acções, mas o resultado era o mesmo: ou falavam para as máquinas através dos smartphone ou então não falavam. Mas se a humanidade continuasse assim, algo de irremediavelmente mau acabaria por acontecer. Mas antes que isso acontecesse, finalmente, os cientistas que trabalhavam na clandestinidade, apoiados por pessoas que gostavam ou tinham mesmo necessidade de falar, conseguiram criar um software para um super-gadget-app-cósmico-quântica que, introduzido sub-repticiamente, nas máquinas das pessoas, fez com que milhares e milhares de delas sem saber como, fosse parar a uma ilha no meio dos oceanos.
De início, ninguém se apercebeu onde estava, o que estava ali a fazer e como tinham ido ali parar. Estavam como zombies, a olhar desconfiados para todos os lados à procura de respostas. Aconteceu então o primeiro momento de pânico colectivo: foi quando se aperceberam que não tinham consigo nem telemóveis, nem smartphones, tablets, laptops, ou qualquer outro aparelho. Desesperados, começaram a andar de um lado para o outro, uns desmaiaram, outros começaram a correr até cair, repuxavam os cabelos – quem os tinha – gritavam, berravam, mas falar… nada. Passado esse momento, cada um por si, começou a procurar algo que pudesse comer, mas não havia. A noite estava a chegar e começava a estar frio, mas ninguém foi apanhar lenha para fazer uma fogueira, nem se juntaram uns aos outros para, em grupo, poderem amenizar a situação. Acordaram de manhã, todos enroscados sobre si mesmos, em posição fetal, mas como ilhas. O frio ia passar porque o sol nascia, mas a fome aumentava. Estavam todos com muita fome. Havia árvores de fruto com bastante fruta, mas limitavam-se a olhar, à espera que os frutos caíssem. Eles não caíam. De vez em quando, apareciam uns bandos de macacos que subiam às árvores, apanhavam a fruta e comiam mas, nem mesmo assim, aquelas pessoas acharam que a fruta estava ao alcance delas, bastando para isso imitá-los. Passaram-se vários dias sem que nada fizessem para a sua sobrevivência. Nem sequer começaram a falar uns com os outros. Mas começaram a ficar à espera dos macacos que vinham várias vezes ao dia apanhar frutos. Os macacos acharam piada à reacção dos humanos. Quando um deles deixou cair um fruto, correram todos, ao mesmo tempo, em direcção ao fruto a ver quem é que o apanhava. Ninguém conseguiu ficar com nada pois o fruto ficou desfeito. A partir daquele dia, os macacos vinham divertir-se com aquelas pessoas que estavam na ilha no meio dos oceanos. Os cientistas que trabalhavam na clandestinidade, apoiados por pessoas que gostavam ou tinham mesmo necessidade de falar, que monitorizavam a situação, chegaram à conclusão que o mero facto de, aquelas pessoas, estarem numa ilha deserta, sem os seus gadgets, com frio e fome, por si só, não os ia pôr a falar com elas próprias. Por isso, numa noite, quando todos dormiam, fizeram a instalação duma grande cabine eletrónica na praia. De manhã quando as pessoas acordaram ficaram muito admiradas e, algumas até sorriram. Esse sorriso foi registado nos aparelhos dos cientistas com o mesmo grau de importância de um abalo sísmico. Renasceu a esperança. A Cabine, era na verdade uma réplica da super-gadget-app-cósmico-quântica que tinha sido responsável pela viagem daquelas pessoas até li. Pretendia-se agora, através de estímulos, que as pessoas recomeçassem a falar. A Cabine ia cumprir um papel fundamental. Era simples, alta, redonda, em forma de cúpula, cor branca e tinha três portas que se encontrava hermeticamente fechadas. Ao lado das portas, havia um painel eletrónico luminoso de cor vermelha. As pessoas passaram a andar às voltas a ver se acontecia qualquer coisa, mas nada. Os dias passavam-se iguais. Os macacos a brincarem com os humanos, fornecendo-lhes fruta e os humanos passavam os dias a andar à volta da Cabine. Um dia, um grupo de três ou quatro macacos, encavalitaram-se e o que estava no topo pôs a pata no painel eletrónico. O painel emitiu um som, ficou verde, a porta abriu-se, os macacos entraram e a porta fechou-se. As pessoas estavam todas de boca aberta. Mas, tão depressa a porta se fechou como se abriu e os macacos saíram de lá a correr e a guinchar. De imediato, as pessoas que estava na ilha deserta, quiseram imitar os macacos, pondo as mãos nos painéis eletrónicos que estavam à volta da porta, mas não aconteceu nada. Tentaram, tentaram, mas nada. À noite, quando estavam todos a dormir, uma dessas pessoas levantou-se devagarinho e foi para o pé da primeira porta. De seguida, chegou outro, e foi para o pé da segunda porta. Seguiu-se um terceiro que se foi colocar em frente da terceira porta. Cada um por si, colocou a mão no painel eletrónico, o painel emitiu um som, ficou verde, a porta abriu-se, e aquelas três pessoas entraram. As portas fecharam-se imediatamente. No interior da Cabine, cada uma daquelas pessoas estava dentro de um compartimento estanque, de vidro, não podendo por isso entrar em contacto com outra. Elas viam-se umas às outras, mas não mantinham qualquer contacto visual. De repente começou a haver um jogo de luzes que tentava direccionar a cara das pessoas para que cada uma ficasse de frente para a outra. As luzes da Cabine bem trabalhavam, mas aqueles três representante da raça humana, além de não falarem, eram teimosas. Olhavam para baixo e acendia-se uma luz forte que as impedia de o fazer. Olhavam para cima e logo se acendia outra luz. Olhavam para os lados, idem. Até que o único lugar que tinham para olhar, era em frente, uns para os outros. Mas nem mesmo assim. Quando estabeleciam contacto visual, fechavam os olhos. Nessa altura, dentro da Cabine, deu-se um estampido, apanharam um choque elétrico, as portas abriram, as três pessoas foram expelidas e as portas fecharam-se. Estas pessoas não contaram nada da sua experiência às que estavam cá fora, nem estas lhes perguntaram. Teimosia, arrogância, egoísmo e sobranceria não lhes faltava. E ainda por cima mantinham na postura de não falar. Todas as pessoas da ilha passaram pela mesma experiência, sendo sempre o mesmo resultado: mão no painel eletrónico, entrada, evitar luzes, evitar contacto visual, fechar olhos, estampido, choque elétrico, abertura de porta, expelição, fecho de porta. Apesar de tudo, todos os dias haviam sempre alguém que continuava a entrar na Cabine e a passar por aquela experiência, pois no fundo, cada um por si, acreditava que a resposta ao que estava a acontecer passava por ali e por isso insistiam. Um dia, três delas, em vez de fecharem os olhos estabeleceram contacto visual. A Cabine, seguindo o algoritmo estabelecido, parecendo que agia como que a agradecer, abriu uma portinhola em cada um dos compartimentos. Nessa portinhola estava um livro, um caderno, lápis e um preparado alimentício que a NASA usava nas suas viagens cósmicas. As portas abriram-se e uma voz feminina, muito suave e educada disse: agora, façam o favor de sair. Assustaram-se com o som da voz, mas perceberam e saíram. Cá fora ficaram todos com inveja daquelas três pessoas por terem um caderno, lápis e um preparado alimentício que a NASA usava nas suas viagens cósmicas. Mas nem eles disseram o que fizeram, nem as outras pessoas lhes perguntaram. E assim continuaram mais uns dias, semanas, com os macacos já a perderem o interesse da brincadeira da fruta e cada vez mais pessoas a conseguirem o caderno, lápis e o preparado alimentício que a NASA usava nas suas viagens cósmicas. Um dia, uma das três pessoas que estava na cabine, depois de ter recebido um caderno, lápis e um preparado alimentício que a NASA usava nas suas viagens cósmicas, sabendo que a Cabine os ia dizer para sair, antecipou-se e disse, antes que a máquina o fizesse, agora, façam o favor de sair. E a máquina respondeu: muito bem, é a falar que as pessoas se entendem. Sim, e agora podem sair. E os três saíram, espantados com o que se tinha passado. Vinham a sorrir, o que deixou todas as outras pessoas intrigadas. Passados muitos mais dias, aos cientistas que trabalhavam na clandestinidade, apoiados por pessoas que gostavam ou tinham mesmo necessidade de falar, que monitorizavam a situação, chegou-lhes finalmente o que tanto estavam à espera. As três pessoas que entraram na Cabine, fizeram contacto visual, olharam francamente umas para as outras e uma delas disse:
- Olá.
- Olá. – Respondeu-lhe a segunda, perante o espanto da terceira, que não teve tempo de articular nada porque nessa altura a Cabine escureceu e, quando as luzes acenderam, ele estava sózinho nela. Ficou estupefacto. A Cabine convidou-o a sair e ele saiu. Muito sério, devagar, dirigiu-se a duas pessoas, agarrou-as pela mão, e levou-as para a Cabine. Quando os três estavam lá dentro falou:
- Olá. – Mas não ouviu qualquer reacção das outras duas pessoas.
- Olá! – Insistiu. – Mas o silêncio manteve-se. As outras duas pessoas encolhiam os ombros e nada faziam. Já em desespero disse, com a voz muito calma:
- É a falar que as pessoas se entendem. Naquele momento a Cabine ficou escura. Quando as luzes se ligaram só estavam os dois que tinham ficado calados. Esses mesmos, quando saíram da cabine, em vez de avisarem todos o que se estava a passar para finalmente todos perceberem o que tinham de fazer, que era falar, nada fizeram. Cada uma daquelas almas era suficientemente arrogante, individualista e muito estúpida para querer dar o passo em frente.
Numa manhã muito bonita, um dos humanos acordou, foi para o meio das pessoas todas e começou a dizer:
- A falar é que a gente se entende! – mas não obteve qualquer resultado, insistiu. – A falar é que a gente se entende!
Falou mais alto.
- A falar é que a gente se entende! – ouviu-se um burburinho.
- A falar é que a gente se entende! – falou ainda mais alto, iniciando uma corrida louca em volta das pessoas a repetir-se. Repentinamente, como o trovão duma tempestade, ouviu-se um coro uniforme d emilhares de pessoas que há decadas que não falavam:
- A falar é que a gente se entende!
- A falar é que a gente se entende!
- A falar é que a gente se entende!
Os cientistas que trabalhavam na clandestinidade, apoiados por pessoas que gostavam ou tinham mesmo necessidade de falar, perante aquele resultado rejubilaram de alegria:
- As pesoas já falam, e mais, já falam entre si.
Depois de falarem umas com as outras e perceberem o mecanismo da Cabine, cada um daquelas pessoas regressou à sua origem.
O que elas não tinham percebido é que vinham da ilha contaminadas com um virus que fazia com que rejeitassem qualquer tipo de comunicação que pusesse em causa a existência da linguagem oral.
Com o regresso às origens, os cientistas que trabalhavam na clandestinidade, apoiados por pessoas que gostavam ou tinham mesmo necessidade de falar, puderam, pela primeira vez, ter um sono descansado.
Mas…
[Bzzt… Bzzt...Bip, bip, bip. Connection.
Humanos em descanso. Action! Action!]
[Bzzt…連接]
[बज़्ट ... बज़ट ... बिप, बिप, बिप। कनेक्शन।
[Bzzt… Bzzt...Bip,
bip, bip. Connection. Humanos em descanso. Received! ]
[Bzzt...Бип, бип, бип. Подключение. Получили!]
[ Bzzt… Bzzt...Bip. Copy.]
[Bzzt… All points sincronized!]
[Bzzt… 모든 포인트가 동기화되었습니다!]
